domingo, 7 de julho de 2019

Os meninos do interior.


''Por que teus olhos ficarão abertos para quem os viu uma única vez. Todos irão sempre contra ti, por que hás de querer um mundo novo e diferente, por que és estranho e diferente para nosso mundo. És quase um louco porque não da atenção a toda gente. Dirão que és poeta, por que aparece poesia nos teus gestos, como aparece fé na oração de um crente. Amaste quase todos os homens. Mas o amor agora é tão difícil. Não existes para mim, mas agitado, febril. Quase doente, és vivo. Vivo demais para viver conosco.'' -Hilda Hilst, Baladas - poema XVII.




Nas terças tinha aula de educação física, as duas últimas, era fim de ano e tudo o que tinha eram recriações esportivas. O que me exprimia a matar-las. No entanto não queria chegar mais cedo em casa. Não haveria nada mais a se fazer por lá, além da grande lista de filmes da nouvelle vague que ainda tivera que ver. Tuas mensagens chegam. Não é disso que deveria fazer essa terça. Mas o que importa em por um pouco de você no meio das minhas leituras.

 A biblioteca sempre na mesma esfera espiritual: silêncio profundo com sussurros respiratórios. De vez ruídos de cadeiras denunciando a impaciência do acomodado. No balcão que ficava na frente da porta, dois estagiários e a moça que trabalhava a anos, provavelmente concursada, muito querida e atenciosa, me fez um dos maiores atos de empatia intelectual, me apresentou Beauvoir e suas questões mais aprofundadas que costumava me ocupar. Fico aflito, será que conseguirei ler algo antes que você chega-se e me tome-se o olhar? Os estagiários, eram garotos gentis, mas não pareciam entender muito de literatura, eram de outras áreas, cursavam administração, nunca compreendi a lógica. Teve até um tempo em que estagiou um estudante de biológicas, foi o mais perto de uma amizade que tive com um estagiário da biblioteca, ele me estimulava a gostar de biologia, um dia lembro-me que de tanto ele insistir eu levei um livro de genética, claramente não peguei no livro depois de colocar-lo sobre a mesa do meu quarto.

Me guio até a estante de poesia, poesia é coisa rápida, não tem ordem, uma frase pode valer a leitura do dia todo. Neruda, era meu companheiro mais fiel nesse tempo, nunca levei ele para casa, gostava de ler ali, parecia que esse era meu ponto de encontro com ele. As tardes de terça - quando fugia da escola mais cedo. Mas Neruda, é muita paixão, veemência-exaustão de sentir. No pensar que você chegasse e me teria num delírio infame de paixão, e que não me darias ouvidos, guardei-o na estante. O que ler em tua espera? Um poeta político? isso me ajudaria talvez em um possível debate que provavelmente travaríamos no meio dos teus silêncios e perguntas sociológicas. Brecht?

 Está no balcão entregando os livros, e justificando o por que do atraso, e como sempre tentando se livrar da multa. Te olho vulgarmente como quem julga por impulso, mas admira por essência. Me omito no instante de sair da minha busca, Você nota rapidamente o meu desfoque, e grita meu nome no maior volume que o ambiente permitiria, na verdade, não permitia. Os estagiários fingiram não ver a expressão grotesca que criou desatentos nas mesas de estudo. Deixo Brecht para uma outra hora, sei que seus ditos terá um pouco dele. Como numa mesa de debates universitários, tu inicia uma apresentação do que poderia ser o diálogo nesta tarde. Era algo haver com música, eu como sempre tentando te acompanhar, como Simone acompanhava Sartre em direção a seu desenvolvimento, temos muito dos dois em nós. O que nos divide dos dois é o sexo, você me acha assexual demais, e eu acho que não sei fazer papel dominante com alguém tão cheio de si. Esse nunca foi o foco.

Evitando com silêncios entrar em assuntos divergentes queria mais uma tarde só de luz, árvore e ficar nessas escadas até chegar a hora de ir. Tu como uma coruja, nota o meu desprezo com o que vem por minutos tentando iniciar, teu ego te silencia, como se tua voz, só consegui-se validade através das minhas respostas. No momento, escolho não amaciar  teu desgosto, sabia que tua mente estava formulando mil coisas e teu peito ofegante desejava expressar tuas perguntas. O tempo nisso virou só presença, como se jamais tivera tido um passado ou ideia de futuro, era só dois corpos deitados nas escada do teatro municipal.

 O corpo das palavras que busquei dizer para ir embora, eram desossadas, versos invertebrados, covardia e inexpressiva vaidade em que o fim se ilustra. Você entende como sempre um bom entendedor o faz, era nosso último tempo juntos antes de viajar. Não expressa a angústia que sentia sempre ao dizer, no dizer soa um adeus silencioso e agradecido pela troca de peso que fizemos um ao outro. 

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